A utilidade de permanecer Humano!
Há livros que não se lêem: habitam-nos. Entram devagar, como uma brisa antiga, e lembram-nos o que o tempo e o ruído do mundo quase nos fizeram esquecer. Este é um desses livros um manifesto sereno contra o império da pressa, contra a servidão disfarçada de produtividade. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, subversiva: há coisas que valem precisamente por não servirem para nada. O saber, a arte, a poesia, o pensamento tudo o que não se vende nem se mede é o que mais profundamente nos justifica. Lembro-me das palavras de Montaigne, quando dizia que “é melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia”; e de Sócrates, que via na vida não examinada uma vida que não merece ser vivida. O inútil, neste sentido, é o exercício da liberdade interior. Vivemos tempos que desconfiam da contemplação. Tudo deve ter uma função, uma aplicação, um retorno. Mas o que seria de nós sem o silêncio dos livros, sem a música que não resolve problema algum, sem o gesto gratui...