A utilidade de permanecer Humano!



 



Há livros que não se lêem: habitam-nos. Entram devagar, como uma brisa antiga, e lembram-nos o que o tempo e o ruído do mundo quase nos fizeram esquecer. Este é um desses livros  um manifesto sereno contra o império da pressa, contra a servidão disfarçada de produtividade.

A ideia é simples e, ao mesmo tempo, subversiva: há coisas que valem precisamente por não servirem para nada. O saber, a arte, a poesia, o pensamento  tudo o que não se vende nem se mede  é o que mais profundamente nos justifica. Lembro-me das palavras de Montaigne, quando dizia que “é melhor uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia”; e de Sócrates, que via na vida não examinada uma vida que não merece ser vivida. O inútil, neste sentido, é o exercício da liberdade interior.

Vivemos tempos que desconfiam da contemplação. Tudo deve ter uma função, uma aplicação, um retorno. Mas o que seria de nós sem o silêncio dos livros, sem a música que não resolve problema algum, sem o gesto gratuito de quem estende a mão apenas porque sim? Em tempos de escassez espiritual, a inutilidade torna-se o último reduto da humanidade.

Dante procurava na poesia um caminho de ascensão moral; Shakespeare via na ficção a mais nítida forma de verdade; Cervantes inventou a loucura como resistência ao mundo prático. Todos, de modos distintos, mostraram que o essencial nunca é útil — é fértil.

E, contudo, a escola, a universidade, até o quotidiano parecem hoje medir o valor pelo rendimento. As disciplinas do espírito são olhadas com desconfiança, como se pensar demoradamente fosse um luxo e não uma necessidade. Esquecemo-nos de que o que não produz lucro pode produzir sentido, e que o inútil é, afinal, o que dá textura à existência.

Há uma frase de Leopardi que ressoa como advertência: “Sem ilusões, o homem é infeliz; mas sem ilusões, também não seria homem.” Talvez a inutilidade de que aqui se fala seja isso mesmo — a capacidade de sonhar quando tudo o resto nos pede eficácia.

Não sei se o livro me ensinou algo novo, mas recordou-me algo essencial: que a beleza é sempre uma forma de resistência, e que nada é mais urgente do que preservar o direito ao inútil — esse espaço onde o humano ainda respira.

Baseado no livro de Nunccio Ordine; «A utilidade do inútil» 


Filomena Fonseca







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